Recentemente foi publicado uma matéria do nosso dia-a-dia em Cardiologia – dislipidemia. Abaixo segue o título e a data da reportagem:

A reportagem e muitas outras informações divulgadas rotineiramente na internet nos incentivaram a publicar esse texto. Será que isso mesmo tem plausibilidade biológica (critério de Hill clássico), evidência científica e o mais importante se observa isso na prática?
Então, vamos lá:
- Plausibilidade biológica e evidência científica: para quem não se recorda, aqui uma breve definição do conceito: Em epidemiologia, o termo plausibilidade biológica refere-se à proposição de uma relação causal que seja consistente com o conhecimento biológico e médico existente. Logo, sabemos o LDL (colesterol ruim ou low density cholesterol), é um grande fator de risco para aterosclerose. Aterosclerose é a formação de placas de colesterol pelo organismo. Além disso, é o principal mecanismo/etiologia de eventos cardiovasculares como infarto agudo do miocárdio (IAM) e acidente vascular cerebral (AVC). E o que suporta isso? Todas as evidências abaixo.

Logo, não, não tem plausibilidade biológica e muito menos evidência científica que suporte essa ideia. Alega-se por terceiros que o colesterol é necessário para imunidade, cognição e formação de hormônios. Sim, isso de fato por ser verdade pela fisiologia, mas não procede em relação aos níveis que medimos no sangue. Esse colesterol é necessário no intracelular, algo que não medimos. Medimos a quantidade no sangue. Isso, de fato, temos segurança em afirmar, que podemos deixar em zero, que não existem paraefeitos importantes. Por quê? Porque fazemos isso frequentemente principalmente em prevenção secundária (quem já teve evento cardiovascular ou tem aterosclerose obstrutiva) com diversos estudos demonstrando a segurança de reduzir drasticamente o LDL com novas medicações como ODYSSEY, FOURIER e ORION trials.

Nesses estudos, houve redução drástica do LDL e consequente redução de eventos cardiovasculares em pacientes de muito alto risco cardiovascular. Por esse motivo, estabeleceram novas metas de alvo do controle de LDL para tais pacientes < 50 mg/dL. E nos próprios estudos, não foi observado nenhum efeito colateral relevante como os atribuídos em cognição/imunidade.
Mas, então: “LDL é o grande vilão e quanto mais baixo melhor?!” Sim, não temos nenhuma sombra de dúvida em relação a isso.

Essa figura acima, retirado do J Am Coll Cardiol, demonstra a “carga de colesterol-ano”, isolando todos outros fatores de risco de maneira estatística, LDL 200mg/dL desde que nasceu, leva esse grupo de pacientes a ter evento cardiovascular em média aos 35 anos. Já com LDL 125mg/dL, aos 63 anos (média da maioria das pessoas) e, por fim, 80mg/dL com 100 anos, ou seja, morre de outra causa.
Não acreditou? Então, observe mais evidência científica:

Resumo de todos esses Trials: a redução de 10% no LDL acarreta em uma redução do risco relativo de 13,5% de AVC e a cada redução de 39mg/dL, reduz-se 35,9% AVC.
Com essa ilustração, fazemos um contraponto com o suposto risco de demência. Será mesmo que as estatinas (principais medicações utilizadas) podem fazer demência? Sabendo que uma das principais causas de demência é a vascular por inúmeros acidentes vasculares isquêmicos prévios, isso é outro argumento que não tem plausibilidade biológica.

Terminamos aqui, ao som de orquetra da queda do Titanic, para todos aqueles que defendem que colesterol/LDL alto é bom, com a linha temporal do tratamento da dislipidemia.
Opinião cardio.lógico: nesse texto já explicítamos nossa opinião, sempre a favor da evidência científica construída ao longo de anos. Mas, gostaríamos de dar um conselho: não jogue contra a ciência, que você tem uma probabilidade de quase 100% de perder.